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Brasil e Europa nas cadeias de biometano: oportunidades, barreiras e cooperação tecnológica

Por Laís Víctor – Especialista em energias renováveis e Diretora executiva


Brasil e Europa nas cadeias de biometano: oportunidades, barreiras e cooperação tecnológica
Brasil e Europa nas cadeias de biometano: oportunidades, barreiras e cooperação tecnológica

O biometano como elo entre continentes

Entre metas climáticas ambiciosas e uma corrida por autonomia energética, o biometano emerge como uma ponte invisível, mas decisiva, entre Brasil e Europa.De um lado, o continente europeu acelera sua transição energética em busca de segurança e soberania, impulsionado pela crise do gás e pela necessidade de reduzir a dependência de combustíveis fósseis. De outro, o Brasil reúne todos os ingredientes de uma potência verde: território extenso, abundância de biomassa e décadas de experiência com biocombustíveis.


Essa combinação não é apenas complementar; ela é estratégica. A Europa precisa de fornecedores confiáveis de biometano certificado, e o Brasil tem condições técnicas e naturais para ocupar esse papel. A questão é: estamos preparados para nos posicionar antes que essa janela de oportunidade se feche?


Mais do que um combustível limpo, o biometano representa uma oportunidade de reposicionar o país na economia global de baixo carbono. Mas isso exige mais do que potencial: requer regulação estável, confiança técnica, infraestrutura adequada e convergência política.


A Europa avança e dita o ritmo

Desde 2022, o plano REPowerEU tem redesenhado o mapa energético europeu ao estabelecer a ambiciosa meta de produzir 35 bilhões de metros cúbicos de biometano por ano até 2030, posicionando esse combustível como um dos pilares da transição para gases renováveis. Para sustentar essa meta, a European Commission lançou, durante a European Sustainable Energy Week, a Biomethane Industrial Partnership (BIP) — uma iniciativa que une governos, empresas e centros de pesquisa em torno de um mesmo propósito: transformar o biometano em vetor de segurança energética e competitividade industrial.


Entre os países que lideram esse movimento, a Dinamarca se destaca como referência global. De acordo com a International Energy Agency (IEA), o país já alcançou 37,9% de participação de biometano e biogás renovável em sua rede de gás, um marco que demonstra como políticas consistentes e integração tecnológica podem acelerar a descarbonização sem comprometer a segurança do abastecimento.


A trajetória europeia mostra que o biometano não é apenas uma alternativa ao gás fóssil, é um instrumento de soberania energética e de reindustrialização verde. No entanto, os desafios ainda são significativos: custos de implantação elevados, assimetrias regulatórias e limitações de crédito dificultam a expansão do setor em escala continental.


É justamente nesse contexto que enxergo uma oportunidade estratégica para o Brasil. Enquanto a Europa busca parceiros confiáveis e sustentáveis para diversificar seu suprimento de energia limpa, o país reúne condições únicas, abundância de biomassa, experiência em bioenergia e crescente capacidade técnica, para se consolidar como protagonista na oferta de moléculas renováveis e na cooperação tecnológica internacional. A convergência entre o avanço europeu e o potencial brasileiro pode redefinir não apenas a geopolítica dos biocombustíveis, mas também o papel do Brasil na nova economia verde global.


O Brasil, potência verde ainda em espera

De acordo com o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035) da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil possui potencial técnico superior a 120 milhões de metros cúbicos diários de biometano, o equivalente a aproximadamente 40% da demanda nacional de gás natural.Esse volume é suficiente para substituir parte relevante das importações e ainda gerar excedentes para exportação.


As fontes estão distribuídas entre resíduos agroindustriais, urbanos e pecuários. O setor sucroenergético responde por mais de um terço desse potencial, seguido pela agropecuária (com destaque para a suinocultura) e pelos resíduos sólidos urbanos. O país tem a biomassa, a tecnologia e a experiência, mas carece de escala, integração e governança.


Nos últimos anos, houve avanços importantes. A Lei nº 14.993/2024 e o Decreto nº 12.614/2025 instituíram o Programa Nacional de Biometano e criaram o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), passo essencial para rastrear e comprovar o desempenho ambiental do combustível. Essa certificação será decisiva para atender às exigências da Diretiva Europeia de Energias Renováveis (RED III) e abrir caminho para exportações.


Mas, enquanto a regulação amadurece, a infraestrutura e o financiamento ainda caminham lentamente. O Brasil tem a base produtiva, mas falta transformar política pública em mercado.


A ponte energética: tecnologia e confiança

A cooperação tecnológica é o alicerce que pode transformar potencial em integração. A Parceria Energética Brasil–Alemanha (BEP) tem atuado nesse sentido, com grupos de trabalho dedicados à certificação de origem, rastreabilidade e compatibilidade entre sistemas de medição. Essa troca técnica aproxima os padrões nacionais dos europeus e abre caminho para o reconhecimento mútuo das garantias de origem.


Empresas europeias especializadas em purificação, upgrading, compressão e liquefação (Bio-GNL) já avaliam o mercado brasileiro como destino prioritário para parcerias. Há espaço para joint ventures e co-investimentos em polos de biometano, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Sul, onde o agronegócio e a produção de resíduos agrícolas convergem.


Transformar parcerias pontuais em cooperação institucional é o próximo passo. A interoperabilidade regulatória e tecnológica é o que permitirá ao Brasil deixar de exportar biomassa para exportar energia de fato, em forma de moléculas de baixo carbono.


O biometano como negócio e não apenas energia

O biometano não é apenas um combustível: é uma plataforma econômica de baixo carbono. Pode abastecer frotas urbanas e agrícolas, substituir o gás natural fóssil em indústrias e gerar créditos de carbono.Em um cenário de precificação de carbono crescente, trata-se de um ativo estratégico tanto para a transição energética quanto para a competitividade industrial.


Empresas globais já percebem esse movimento. A BP anunciou planos para desenvolver nove projetos de biometano no Brasil, começando por uma planta em Goiás com produção estimada em 70 mil m³/dia a partir de bagaço de cana. Outros grupos, como Raízen e Vibra Energia, também estudam investimentos para integrar biogás e biometano em suas cadeias de valor.


Segundo o Rabobank (2024), o custo de produção brasileiro já se mostra competitivo com o gás natural importado, especialmente quando associado à cogeração de etanol e energia elétrica. Essa sinergia coloca o país em posição privilegiada para atrair capital europeu voltado à substituição de combustíveis fósseis.


Os entraves ainda são domésticos

Mesmo diante de tamanha oportunidade, os gargalos continuam sendo internos.A regulação de injeção na rede de gás ainda é fragmentada, a burocracia ambiental retarda licenças e a tributação sobre biometano carece de previsibilidade.O financiamento também segue desafiador: embora o BNDES disponha de linhas sustentáveis, os modelos de crédito ainda não se adequam à natureza descentralizada dos projetos de biogás e biometano.


Soluções passam por mecanismos de blended finance, que combinam capital público, privado e climático. O Banco Europeu de Investimento (BEI) já manifestou interesse em apoiar projetos de biometano no Brasil, mas a consolidação dessa ponte financeira depende de marcos estáveis e transparência de dados.


A certificação internacional é outro obstáculo. Para que o biometano brasileiro seja reconhecido pela União Europeia, será necessário harmonizar o CGOB com a Union Database e garantir auditorias independentes. Essa interoperabilidade é o que dará credibilidade às exportações e abrirá portas para contratos de longo prazo.


Da cooperação técnica à integração de mercados

Sem integração regulatória e confiança técnica, não haverá mercado internacional de biometano.O potencial produtivo, por si só, não basta. O Brasil precisa de uma estratégia nacional coordenada, unindo governo, setor privado e instituições financeiras em torno de um objetivo comum: transformar biomassa em valor agregado.


O biometano pode se tornar o vetor de uma nova fase da relação energética entre Brasil e Europa.O continente europeu quer gás renovável certificado; o Brasil tem biomassa, tecnologia e experiência em bioenergia. A convergência entre esses dois mundos pode redefinir não só o papel do país nas cadeias de energia limpa, mas também sua relevância geopolítica.


A transição energética é mais que uma corrida por novas fontes, é uma disputa por protagonismo tecnológico e reputacional. A Europa já se move. O Brasil precisa decidir se quer liderar essa transição ou apenas assisti-la.


O tempo da cooperação é agora

O biometano representa uma das oportunidades mais tangíveis para o Brasil se consolidar como protagonista da transição energética global. Temos base produtiva, capital humano e uma matriz majoritariamente renovável, ativos que poucos países possuem. O que falta é decisão política e pragmatismo regulatório.


A integração com a Europa pode acelerar esse processo, mas o relógio está correndo. Se o país não avançar em certificação, infraestrutura e incentivos, outros ocuparão esse espaço e voltaremos a exportar commodities enquanto importamos tecnologia.


O biometano não é apenas uma molécula limpa: é uma ponte de confiança entre economias que acreditam no mesmo futuro, um futuro em que sustentabilidade, segurança energética e cooperação internacional caminham lado a lado.O momento de atravessar essa ponte é agora.


Sobre a autora 

Laís Víctor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com 14 anos de atuação no setor de energia. Sua atuação inclui o desenvolvimento de negócios, estruturação de alianças estratégicas e apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco na construção de ecossistemas sustentáveis e inovação no mercado global de renováveis. 


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